Ah, tão bonito e tão complicado!
Algumas reflexões sobre a fotografia de Samet Durgun e (alguns de) quem veio antes
De Come Get Your Honey (Kehrer Verlag, 2021)
Berlim queer?
Samet Durgun mora em Berlim, e é aqui que se passa Come Get Your Honey. Berlim não é só mais uma cidade europeia. Ela tem uma atmosfera toda própria, uma insistência persistente em progresso, libertação, mudança, liberdade. Mas também existe uma correnteza sempre presente que nos lembra que direitos, liberdade e progresso vivem uma existência frágil.
A complexa Berlim de hoje deve muito ao que aconteceu depois da Primeira Guerra Mundial, quando o surgimento da República de Weimar democrática transformou a Alemanha e, em especial, sua capital.
Quando 1918 se aproximava do fim, uma vontade aparentemente imparável de festejar inundou Berlim. Durante a guerra, tinha existido um Tanzverbot (proibição de dançar), e quando a proibição foi suspensa na véspera de Ano Novo de 1918, Berlim enlouqueceu. Um jornalista do Berliner Tageblatt escreveu esta descrição bem certeira daquele Ano Novo — e da atmosfera especial e frenética que logo permearia tudo na capital alemã: “O que o berlinense celebra? O direito de celebrar — e celebrar exatamente como quiser. Ele celebra aquilo que talvez nunca mais tenha de volta: horários estendidos para sair à noite; liberdade de obrigações; a bebedeira antes da ruína.” Isso marcou o início de uma década em que Berlim provavelmente se tornou a cidade mais empolgante, mais assustadora e, de certas formas, mais liberada da Europa.
Foi uma era de liberdade, experimentação e caos extremo, uma era de contrastes. A pobreza disparou em Berlim. Muitos, crianças e adultos, recorreram ao trabalho sexual por desespero. A criminalidade ocupava muito espaço, e as drogas estavam em todo lugar. A cidade também viu uma enxurrada massiva de intelectuais, artistas e cientistas que se estabeleceram e permearam todos os aspectos da vida em Berlim, escrevendo alguns dos livros mais influentes do século, fazendo pesquisas pioneiras, compondo música brilhante e transformando o cinema em sua própria forma de arte. Berlim era uma mistura de grandes festas, grandes ideias, grandes oportunidades e grandes problemas.
No meio de tudo isso, a cultura queer estava presente — e visível. Ela se refletia fortemente na vida noturna lendária de Berlim, mas também nas artes, na ciência e na literatura, fundamentalmente em todas as esferas da vida.
Foi também em Berlim que o Dr. Magnus Hirschfeld fundou, em 1919, seu Institut für Sexualwissenschaft — um dos primeiros institutos de pesquisa sexológica, localizado no Tiergarten. O instituto abrigava um vasto arquivo sobre sexualidade e oferecia toda uma gama de serviços educacionais e consultas médicas tanto para ricos quanto para pobres, desde aconselhamento matrimonial até tratamentos hormonais.
Hirschfeld foi o primeiro europeu a distinguir entre gênero e identidade sexual, e escreveu inúmeros artigos e livros sobre a natureza fluida do gênero e a diversidade das variantes sexuais, que ele descrevia como quase ilimitada.
Eram dias iniciais, e a linguagem em torno de gênero e sexualidade ainda era bem rudimentar na Alemanha, mas o trabalho realizado nesse instituto era, embora longe de perfeito, verdadeiramente progressista e à frente do seu tempo. A ascensão do nazismo pôs um fim muito brutal ao instituto, ao pensamento liberal em geral e à vida artística e noturna vibrante e liberada de Berlim (e do resto da Alemanha).
E assim chegamos até aqui — uma guerra mundial e duas ditaduras depois, numa Berlim quase destruída por bombas, depois cortada em duas, e mais tarde reunificada. Depois da queda do Muro, foi como se Berlim recuperasse algo da sua atmosfera de Weimar. Uma cena techno surgiu das ruínas e dos espaços abandonados do antigo Leste. De repente, Berlim voltou a dançar, e a cidade se tornou uma incubadora de estilos de vida diferentes. Nos últimos anos, a gentrificação tem sido motivo de grande preocupação para todos que valorizam a aspereza de Berlim, mas apesar do turismo de massa, dos apartamentos caros e dos shoppings surgindo por toda parte — Berlin bleibt Berlin. Uma cidade construída sobre ruínas — literal e metaforicamente — repetidas vezes; Berlim é, acima de tudo, um estado de espírito. Ao mesmo tempo permissiva e crua.
Em resumo, por várias razões históricas, existe algo quase poético e muito apropriado no fato de uma das poucas moradias voltadas especificamente para refugiados e solicitantes de asilo LGBTQIA+ na Europa ficar em Berlim. Magnus Hirschfeld com certeza teria aplaudido isso! São alguns dos antigos moradores dessa casa e seus amigos que estão no centro deste livro do fotógrafo Samet Durgun. Come Get Your Honey é a história de um grupo de pessoas muito especiais numa cidade muito especial, que dá espaço a quem for corajoso o suficiente para ocupá-lo. É a história de um fotógrafo que explora sua própria identidade artística através das pessoas na frente da sua câmera, e vice-versa. Não é nada menos que uma história de amor — mas não uma cor-de-rosa. Berlim não te julga — mas também não te levanta se você cair.
Abraçando o inconcebível
O olhar fotográfico de Durgun interage com um grupo de pessoas que estatisticamente seguem sendo os elos mais invisíveis do sistema internacional de asilo, um sistema que, de muitas formas, continua extremamente centrado na heterossexualidade/cisgeneridade. Esse é um fato muito, muito problemático. Muitos poderiam, portanto, (compreensivelmente) se sentir tentados a transformar isso numa história com uma agenda social e política bombástica. Felizmente, o trabalho de Durgun segue um caminho bem mais complicado, pavimentado com fragmentos de histórias, detalhes de vidas vividas, vislumbres de dilemas, conflitos, alegria. Ele não está numa missão para nos “iluminar”; em vez disso, suas imagens revelam algo infinitamente intricado e bastante inconcebível, porque ele sabe que ser humano no mundo não pode ser explicado. Come Get Your Honey é como uma melodia. Existe uma correnteza de sentimento e empatia que vem do fato de Durgun abraçar a complexidade inerente à fotografia — e ele consegue fazer isso porque é empoderado pelas pessoas que fotografa. Ele mesmo aborda isso quando pergunta: “e se a fotografia for mais sobre escutar do que sobre ver?” É justamente por esse motivo que o trabalho de Durgun se move do documentarismo puro para a fotografia artística — ele reconhece a ausência de uma narrativa única. A arte faz perguntas, nos leva em viagens rumo ao desconhecido. Arte e vida são um milhão de histórias contadas simultaneamente.
Come Get Your Honey é o resultado de um processo orgânico e muito humano — uma amizade profunda e em constante evolução. Como isso surgiu é descrito lindamente em outra parte deste livro. Basta dizer que, no próprio núcleo das imagens de Samet Durgun, existem subjetividade e participação.
Vários fotógrafos retrataram a vida queer. Na maioria das vezes com resultados bem variados ou catastróficos, que reduziam os sujeitos a objetos sujeitos a um olhar de fora que sinalizava “alteridade” e voyeurismo. Dois fotógrafos que escaparam dessas armadilhas e acabaram produzindo obras importantes nesse campo são o fotógrafo sueco Christer Strömholm e a fotógrafa americana Nan Goldin. De certa forma, eles podem ser vistos como precursores de Samet Durgun.
Christer Strömholm
O fotógrafo sueco Christer Strömholm (1918–2002) viajou para Paris na década de 1950. Ali, ele conheceu uma comunidade de mulheres trans da Place Blanche, no bairro de Montmartre. Nos dez anos seguintes, ele fotografou muitas dessas mulheres — na rua, em bares, em quartos de hotel. O ensaio fotográfico cuidadosamente construído Vännerna från Place Blanche (As Amigas da Place Blanche), resultado desse trabalho, é um testemunho de amizade e amor dentro da comunidade trans e, com certeza, também entre o fotógrafo e as pessoas fotografadas. Ao mesmo tempo, ele documenta uma região de Paris que era lendária como um caldeirão de todos os tipos de estilo de vida, numa época em que a França como um todo era tudo, menos “gay” (no sentido mais amplo da palavra). Na verdade, a França do fim dos anos 50 era uma sociedade muito rígida, governada pelo general Charles de Gaulle, que, junto com sua esposa Yvonne, lutava apaixonadamente contra tudo o que fosse “imoral” — da minissaia à pornografia. A sociedade majoritária francesa, dominada pelo conservadorismo e pelo catolicismo, via a queerness como pecaminosa e errada. Ser trans e visível era decididamente perigoso — o que continua sendo o caso em todo o mundo. Diariamente, os amigos de Strömholm eram assediados pelos policiais que patrulhavam a região, e para a maioria deles era impossível conseguir trabalho diurno — então a maioria trabalhava como profissionais do sexo ou artistas de cabaré.
Uma das mulheres, Nana, descreve assim sua relação com as autoridades: “A polícia era horrível. Estivéssemos trabalhando ou não, eles sempre nos levavam. Nos mantinham detidas dez horas sentadas num banco, às vezes numa cela…” (Les Amies de Place Blanche, 2011, edição francesa atualizada)
Ser assediada e ficar totalmente à margem da sociedade estabelecida não mudava o fato de que a comunidade da Place Blanche oferecia um forte senso de pertencimento a uma família que as aceitava, então pessoas queer de toda a Europa e do Norte da África se aglomeravam nessa parte de Paris. Sem nenhuma ajuda da cidade ou do Estado — pelo contrário — elas construíram juntas o próprio espaço seguro: “nosso grupo era muito unido, e se algum cara nos atacasse, dava confusão” (Nana em Les Amies, 2011).
Vännerna från Place Blanche não é uma narrativa de sofrimento, mas uma narrativa de sobrevivência e de construção de uma vida apesar da rejeição da família biológica e da sociedade em geral. O livro trata “… da busca por identidade própria, do direito de viver, do direito de possuir e decidir sobre o próprio corpo. Também é um livro sobre amizade, um relato da vida que vivíamos no bairro ao redor da place Blanche e da place Pigalle” (Christer Strömholm, na introdução de Vännerna från Place Blanche, 1983).
Strömholm foi convidado a entrar no mundo dessas mulheres, aceito, talvez amado — e os sentimentos eram mútuos. Strömholm vinha de um contexto familiar complicado, e parece que ele passou boa parte da vida procurando por famílias estendidas ao redor do mundo. Ele era, simplesmente, um semelhante com uma câmera quando chegou a Paris. Nesse caso, o conceito de semelhante é fundamental, pois Strömholm, diferente de Durgun, não se identificava como queer. Strömholm era, rigorosamente falando, um estranho ao grupo, o que torna alguns dos retratos (nus) um pouco questionáveis. Ainda assim, a série como um todo é permeada por um sentimento de respeito mútuo, uma sinergia entre o fotógrafo e seus sujeitos. Nana descreveu assim seus sentimentos sobre os retratos que Strömholm fez dela em 2011: “Eu era feliz. Nas fotos dele, eu me via.” Fora de contexto, existe algo bem exótico e, portanto, clichê no cenário pobre mas sensual de Vännerna från Place Blanche, mas os amigos de Strömholm realmente viviam vidas ditas não convencionais (porque era a única opção deles) — trabalhavam à noite, frequentavam cafés e bares, moravam em hotéis baratos num bairro decadente e cheio de vida.
No geral, a série envelheceu bem bem como uma celebração fotográfica pioneira tanto da vida queer quanto de um bairro parisiense colorido, num momento muito específico da história francesa. Por ser considerada controversa demais, Vännerna från Place Blanche só foi publicada em 1983, e mesmo assim causou um grande impacto.
Nan Goldin
Algumas décadas depois de Christer Strömholm conhecer seus amigos em Paris, a fotógrafa americana Nan Goldin encontrou sua tribo queer em Boston:
“Eu as vi pela primeira vez — Ivy, Naomi e Colette — atravessando a ponte perto da loja de segunda mão Morgan Memorial, no centro de Boston. Elas eram as criaturas mais grandiosas que eu já tinha visto. Fiquei imediatamente fascinada. Segui elas e filmei um pouco em Super 8. Foi em 1972. Foi o começo de uma obsessão que durou vinte anos.
Pouco depois, encontrei elas de novo através do David, meu amigo mais próximo, que tinha começado a fazer drag. Desde a minha primeira noite no The Other Side — o bar de drag queens de Boston nos anos 70 — eu ganhei vida. Me apaixonei por uma das drag queens e, em poucos meses, fui morar com a Ivy e outra amiga. Eu tinha dezoito anos e sentia que também era uma drag queen. Completamente dedicada às minhas amigas, elas se tornaram todo o meu mundo. Parte da minha devoção a elas consistia em fotografá-las. Eu queria homenageá-las, mostrar como elas eram lindas” (Nan Goldin, The Other Side, 1993).
As palavras de Nan Goldin no seu livro The Other Side falam muito sobre sua necessidade instintiva e urgente de dar tanto a si mesma quanto às suas amigas espaço e visibilidade. Goldin (n. 1953) cresceu nos arredores de Boston, numa família disfuncional de classe média. Sua irmã mais velha tirou a própria vida quando Goldin tinha apenas onze anos, o que a deixou profundamente traumatizada. Foi através da fotografia que Goldin encontrou um jeito de seguir em frente na vida e se conectar com pessoas por quem se sentia instintivamente atraída. The Other Side foi publicado pela primeira vez em 1993 e relançado numa versão expandida no início de 2020. Ele conta a história de membros de uma subcultura queer entregues à própria sorte no começo dos anos 70, enquanto tanto o movimento pelos direitos dos homossexuais quanto o movimento feminista ganhavam força. Ele retrata os horrores da epidemia de aids, que matou tantos amigos de Goldin, mas também celebra o surgimento da teoria queer e uma crescente visibilidade queer na cultura mainstream dos anos 80 e 90.
Enquanto Strömholm e Durgun retratam um grupo internacional de pessoas num único lugar, The Other Side é a história de pessoas queer que Goldin conheceu e com quem fez amizade ao redor do mundo. Depois de Boston, ela foi para Nova York, depois Europa e Ásia. E essa abordagem global é talvez a única fraqueza da série, especialmente na seção asiática, onde Goldin se torna uma estranha ao grupo. Embora seu olhar fotográfico seja um olhar queer, ela também é uma ocidental fotografando pessoas asiáticas que vivem em culturas com sistemas e discursos de gênero bem diferentes. Ainda assim, The Other Side é um marco na história da fotografia queer, não menos por causa das fotos iniciais que carregam tanta vulnerabilidade e determinação juvenis dos dois lados da câmera.
Um trabalho de amor
Strömholm e Goldin. Dois fotógrafos diferentes, duas gerações. Ambos retratam a vida queer de dentro para fora, e ambos fazem projetos de longa duração. Juntos, eles reforçam a importância do tempo, da paciência e da participação na hora de criar retratos abrangentes, íntimos e nuançados de indivíduos dentro de uma comunidade. Somos lembrados de que narrativas fotográficas notáveis são muito mais do que só técnica e composição. Esses projetos tratam, fundamentalmente, também de como é possível sair pelo mundo e criar a própria família, quando a biológica não pode, por algum motivo, estar presente por nós. Ao longo do caminho, Strömholm e Goldin criaram documentos históricos importantes que mapeiam as condições de décadas específicas e cidades específicas. Eles se tornam prismas do tempo em que foram criados.
Com Come Get Your Honey, cria-se mais um capítulo importante na fotografia queer, que contém tudo isso — e mais. Samet Durgun é a próxima geração.
Ele se esforça para fotografar tudo aquilo que não conseguimos ver — como mencionado antes, ele escuta — e faz a gente escutar junto com ele. Trata-se da rica vida interior de seus sujeitos e dos vislumbres do cotidiano que abrangem de tudo, do glamouroso ao trivial. As fotos dão espaço tanto para o espetacular quanto para o comum, o silencioso. Come Get Your Honey oferece um olhar nuançado sobre a vida queer, o que é muito necessário e extremamente revigorante.
Durgun explora constantemente questões sobre a ética dos seus projetos. Ele é cuidadoso, aberto e busca novas perspectivas, ampliando assim a linguagem visual da representação queer. Ele conta uma história bem equilibrada e nos serve um pedaço da vida em Berlim, do jeito que ela é. E, diferente de Strömholm e Goldin, ele publica este livro no meio do processo e não anos depois — porque isso é possível. Isso é só o começo! Mal posso esperar para ver o que vem a seguir.
Sobre Marianne Ager
Marianne Ager é curadora; seu trabalho no Kunstmuseum Brandts, em Odense, inclui Love, Lust and Freedom, uma exposição que explora a experiência queer através da fotografia. A exposição, em cartaz em 2024–25, reuniu artistas de diferentes gerações, incluindo Nan Goldin, Robert Mapplethorpe, Wolfgang Tillmans, Sven Marquardt e Birk Thomassen. Ao falar sobre a exposição, Ager destaca o papel da fotografia na autoexpressão e na resistência, além da importância dos museus como espaços para conversas sobre identidade, visibilidade e diferença.