De onde vêm as pessoas de Come Get Your Honey
Pessoas refugiadas e solicitantes de asilo queer e trans em Come Get Your Honey, por país: Turcomenistão, Malásia, Síria, Iêmen, Líbia, Afeganistão e Irã.
Quem vê os retratos de Come Get Your Honey muitas vezes pergunta de onde é cada pessoa. A resposta não é um lugar só. As pessoas cujo país aparece nas legendas vêm do Turcomenistão, da Malásia, da Síria, do Iêmen, da Líbia, do Afeganistão e do Irã, e o círculo em torno do trabalho foi além disso.
Esta página vai país por país. De cada pessoa que nomeio, digo só o que já está publicado: na legenda, no livro, neste site ou com as próprias palavras. Quem não tem nome no livro também não tem aqui. Um país ao lado de um nome já é muita coisa para se saber sobre alguém queer ou trans que estava pedindo asilo, então não acrescento nada que essas pessoas ainda não tenham tornado público.
Abaixo de cada país há uma ou duas linhas sobre a lei e a situação de lá nos anos em que fiz as fotos do livro, de 2018 a 2021. Isso é contexto. Não é o motivo pelo qual alguém foi embora: esse motivo cabe a cada pessoa contar.
Do Turcomenistão
Prince Emrah, que cresceu no Turcomenistão, foi uma das primeiras pessoas que fotografei para a série, e a série existe em parte por causa dela. Ela tem ascendência curda e azerbaijana, e morou em Istambul antes de chegar à Alemanha em 2015. Em Berlim, encontrou na dança do ventre a sua cura, e em 2018 fundou o QueerBerg Collective para apoiar refugiados queer e artistas trans. Ela também me entrevistou para o livro, o que inverteu as perguntas de sempre.
Nos anos em que fiz essas fotos, sexo entre homens era crime no Turcomenistão, punível com até dois anos de prisão.
Da Malásia
A Malásia aparece em mais títulos e legendas do que qualquer outro país. “Segundo as leis da sharia na Malásia, o lugar de uma pessoa trans* nascida numa família muçulmana é a prisão. Essa é a nossa fé”, Suryani me disse. Durante anos, ela passou por hindu. Fugiu da Malásia, passou por um processo de asilo de quatro anos na Dinamarca e depois pediu asilo pela segunda vez, na Alemanha. Suryani With Her Plants é dela, assim como View From the 18th Floor, feita do apartamento onde ela morava na época.
Julie Dancer é uma refugiada trans da Malásia que pediu asilo em Berlim. Ela aparece sentada com a artista de burlesco Noéline la Bouche em Dancers at Their Break. Ela também é a amiga que pintou meu rosto depois de uma oficina de maquiagem na moradia, e foi assim que surgiu o autorretrato com a maquiagem dela.
Outros dois títulos levam o nome do país: Malaysian Dancer e Malaysian Peacock Dancer (I Chose Art to Protect Myself). O segundo mostra uma pessoa não binárie da Malásia perto da moradia reservada a pessoas refugiadas e solicitantes de asilo LGBTQIA+ em situação de risco. No prefácio, Amrou Al-Kadhi escreve que Malaysian Dancer mostra alguém celebrando ao mesmo tempo sua identidade queer e sua herança malaia, sem conflito entre as duas.
A lei federal da Malásia punia o sexo “contra a ordem da natureza” com até vinte anos de prisão e chibatadas. Leis estaduais da sharia contra um homem que “se passa por mulher” foram usadas contra mulheres trans, e depois da eleição de 2018 veio uma onda de repressão contra pessoas LGBT.
Da Síria
Mirna fugiu da guerra na Síria com a família. Quando, depois, se assumiu como trans, a família a rejeitou. Quando a fotografei, ela morava num apartamento oferecido a adolescentes LGBTQ+. Ela aparece em Mirna in Her Kitchen e Mirna Whipping.
A guerra na Síria começou em março de 2011 e, em março de 2022, países vizinhos e próximos tinham acolhido mais de 5,6 milhões de refugiados sírios. A lei síria punia sexo entre homens ou entre mulheres com até três anos de prisão.
Do Iêmen
Gabo é não binárie e vem do Iêmen. Gabo é um pseudônimo que combinamos para o livro, e é o único nome que uso. “No meu estágio, as pessoas querem me ensinar programação, mas eu não quero isso. Quero começar a estudar direito europeu”, Gabo me disse.
A guerra no Iêmen se intensificou em 2015 e, no fim de 2021, mais de quatro milhões de pessoas estavam deslocadas dentro do país. A lei iemenita punia sexo entre homens com chibatadas ou prisão, e com morte por apedrejamento se o homem fosse casado.
Da Líbia
Kylie Divon, que vem da Líbia, está na capa. Na série ela aparece como Keil Li: a capa é Keil Li at Patricia’s Lap, e há outras quatro fotos dela. Na nossa conversa na Fotografiska Berlin, ela contou que foi a primeira mulher trans da Líbia a se assumir publicamente, e que o pedido de asilo dela tinha acabado de ser aceito quando se mudou para Berlim.
A lei líbia punia sexo entre homens ou entre mulheres com até cinco anos de prisão, e desde a revolução de 2011 há relatos de grupos armados que prendem e executam pessoas acusadas disso.
Do Afeganistão e do Irã
“She Is My Mom” (Dormmates) mostra dois amigos da moradia: um refugiado queer do Afeganistão com a cabeça apoiada no colo da amiga lésbica dele, do Irã. Nenhum dos dois é nomeado no livro, nem aqui.
No Afeganistão, o Código Penal de 2017 tornou crime, de forma explícita, o sexo entre homens e entre mulheres, e a Constituição permitia a aplicação da sharia, pela qual isso pode ser punido com a morte. O Talibã assumiu o controle total do país em agosto de 2021. No Irã, sexo entre homens pode ser punido com a morte, e sexo entre mulheres, com cem chibatadas.
O círculo mais amplo
Quase cinquenta pessoas participaram do trabalho de um jeito ou de outro, e quinze delas estão no livro. Por meio de Emrah e dos amigos dela da moradia, conheci pessoas da Rússia, da Síria, da Sérvia, do Afeganistão, da Nigéria, do Irã, da Malásia, do Iêmen, da Líbia, da Turquia e da Palestina. Citei a maioria desses países em uma entrevista de 2021 ao blog Critical Diversity da Universität der Künste Berlin. Esses países descrevem o círculo, e eu não os associo a ninguém específico dentro dele.
Nem todo mundo nas fotos chegou como refugiado. Noéline la Bouche, com Julie em Dancers at Their Break, é artista de burlesco, cantora e modelo, mora em Berlim e é alemã com raízes na África Ocidental. E eu sou alemão-turco-abcázio. Me mudei para Berlim em 2013, e não sou refugiado.
Na Alemanha
Na Alemanha, a lei de asilo daqueles anos permitia proteção como refugiado em caso de perseguição por orientação sexual ou identidade de gênero, e cada pedido é analisado individualmente. Algumas pessoas do livro ainda aguardavam essa decisão quando as fotografei, e outras já tinham seus documentos. O que as palavras refugiado e solicitante de asilo significam para as pessoas do livro está no texto sobre quem está em Come Get Your Honey.
Por que não existe uma lista completa
Algumas pessoas pediram um pseudônimo. Outras não quiseram mostrar o rosto. Algumas fotos eu guardei comigo, porque ser reconhecível poderia colocar alguém em perigo diante de uma família que não sabia. Um nome, um rosto e um país juntos podem bastar para encontrar uma pessoa, então esta página para onde o livro parou. Um novo contexto é uma nova pergunta, e o jeito como faço essa pergunta tem página própria.
Se você quiser usar uma dessas fotografias, leia antes como licenciar uma fotografia da série. O consentimento dado para o livro não vale, por si só, para um novo uso.
A série completa está online, com todas as legendas. Por que só quinze de quase cinquenta pessoas estão no livro, eu conto no texto sobre a edição. A série começou em 2018 e continua em andamento; o fotolivro foi publicado pela Kehrer Verlag em 2021.